Quem tira o útero não engorda automaticamente pela cirurgia em si. O ganho de peso que muitas mulheres relatam após a histerectomia resulta principalmente de mudanças hormonais (quando os ovários também são removidos), redução do metabolismo basal, menor disposição para atividade física no pós-operatório e alterações emocionais que afetam a alimentação. Entender cada um desses fatores é fundamental para separar mito de realidade e buscar estratégias eficazes de controle de peso.

O que é a histerectomia e por que é realizada

A histerectomia é a cirurgia de retirada do útero, podendo ser total (útero e colo do útero) ou subtotal (apenas o útero). Ela é indicada em situações como miomas uterinos de grande volume, endometriose grave, prolapso pélvico, sangramentos anormais refratários a outros tratamentos e alguns tipos de câncer ginecológico [1][2]. Em muitos casos, a cirurgia é a melhor opção terapêutica e traz alívio significativo de sintomas que prejudicam a qualidade de vida da mulher [5].

Existem diferentes vias de acesso: abdominal (corte no abdômen), vaginal (pelo canal vaginal) e robótica ou laparoscópica (com menores cortes). A escolha depende do caso clínico e da experiência da equipe cirúrgica. O tempo de recuperação varia bastante — de duas semanas (via vaginal) até oito semanas ou mais (via abdominal) —, e esse período de repouso relativo é um dos fatores que influenciam diretamente o ganho de peso [2].

Hormônios: o fator principal quando os ovários saem juntos

A causa mais consistente de ganho de peso após a retirada do útero está ligada à retirada simultânea dos ovários (ooforectomia bilateral). Os ovários são os principais produtores de estrogênio e progesterona. Quando são removidos, a mulher entra abruptamente na menopausa cirúrgica, independentemente da idade [4].

A queda brusca de estrogênio altera a distribuição de gordura no corpo: a tendência é que a gordura passe a se acumular mais na região abdominal (gordura visceral) em vez de se distribuir de forma mais uniforme nas coxas e quadris. Esse tipo de gordura é metabolicamente mais ativo e está associado a maior risco cardiovascular. Além disso, o estrogênio tem papel na regulação do metabolismo energético e da sensibilidade à insulina, e sua redução pode diminuir o gasto calórico basal [4].

Quando a histerectomia preserva os ovários, o impacto hormonal é bem menor. Mesmo assim, alguns estudos sugerem que a circulação sanguínea ovariana pode ser parcialmente afetada pela cirurgia, levando a uma leve redução na produção hormonal ao longo do tempo — embora esse efeito seja controverso e variável entre as mulheres.

Metabolismo basal e redistribuição de gordura corporal

O metabolismo basal é a quantidade de energia que o corpo gasta em repouso para manter funções vitais como respiração, circulação e produção de calor. Com a queda de estrogênio na menopausa cirúrgica, esse gasto tende a diminuir. A mulher passa a queimar menos calorias nas mesmas condições em que queimava antes da cirurgia, mesmo sem alterar a alimentação [4].

Essa combinação — menos calorias gastas + redistribuição de gordura para a barriga — cria um cenário propício ao ganho de peso silencioso. Não é que o corpo “produza” gordura do nada; é que o balanço energético se torna positivamente diferente sem que a mulher perceba de imediato. A perda de massa muscular que acompanha o envelhecimento e é acelerada pela queda de estrogênio agrava ainda mais esse quadro, já que o músculo é o tecido que mais consome energia em repouso.

O pós-operatório: repouso, dor e redução de movimento

A recuperação cirúrgica exige repouso e restrição de atividades físicas por um período que pode variar de duas a oito semanas. Durante esse tempo, a mulher deixa de realizar suas atividades habituais — caminhadas, trabalho que exige esforço físico, exercícios regulares — sem necessariamente reduzir a ingestão calórica [2][4].

Se uma mulher que caminhava 45 minutos por dia fica seis semanas sem essa atividade, o déficit calórico diário desaparece. Em seis semanas, isso pode representar um acúmulo de vários quilos, dependendo da alimentação. Somado a isso, o uso de analgésicos, a alteração do sono e o desconforto abdominal levam muitas mulheres a buscarem conforto na comida, especialmente em alimentos ricos em açúcar e gordura, que proporcionam alívio temporário mas contribuem para o ganho de peso.

Fatores emocionais: ansiedade, depressão e alimentação emocional

A histerectomia, mesmo quando necessária, carrega um peso emocional considerável. A perda do útero pode ser vivenciada como perda de fertilidade, de feminilidade ou de parte da identidade corporal. Estudos mostram que mulheres submetidas à histerectomia têm maior risco de desenvolver sintomas depressivos e ansiosos, especialmente no primeiro ano após a cirurgia [1].

A depressão e a ansiedade, por sua vez, são fatores conhecidos de alteração alimentar. A alimentação emocional — comer em resposta a sentimentos negativos, não à fome fisiológica — é um mecanismo de enfrentamento comum. Esse padrão alimentar é caracterizado pelo consumo de alimentos hiperpalatáveis (doces, frituras, carboidratos refinados) em horários inadequados e sem controle de porção, o que leva ao ganho de peso progressivo se não for identificado e tratado.

A cirurgia em si causa ganho de peso direto?

Não. A retirada do útero não é um procedimento que, por si só, provoque acúmulo de gordura. O útero é um órgão que pesa em média 50 a 100 gramas — sua remoção não altera o peso corporal de forma significativa. Algumas mulheres relatam que o abdômen parece “estufado” após a cirurgia, mas isso geralmente se deve a inchaço pós-operatório (edema), acúmulo de gases e alterações transitórias no funcionamento intestinal, não a ganho de gordura [4].

Esse inchaço regride naturalmente nas primeiras semanas. O que pode persistir e ser confundido com “efeito da cirurgia” é o ganho de gordura que se instala gradualmente nos meses seguintes, impulsionado pelos fatores hormonais, metabólicos e comportamentais já descritos. Atribuir o ganho de peso à cirurgia em si é um erro de interpretação que impede a mulher de agir sobre os fatores que realmente pode controlar.

Diferença entre histerectomia com e sem remoção dos ovários

Essa distinção é fundamental para entender por que algumas mulheres engordam após a cirurgia e outras não. A tabela abaixo resume as principais diferenças:

Aspecto Histerectomia com preservação dos ovários Histerectomia com remoção dos ovários
Produção hormonal Mantida (com possível leve redução) Cessa abruptamente
Menopausa cirúrgica Não ocorre Imediata, independente da idade
Risco de ganho de peso Moderado (relacionado ao repouso) Elevado (hormonal + repouso + metabólico)
Redistribuição de gordura Pouca ou nenhuma alteração Pronunciada, com aumento de gordura abdominal
Necessidade de reposição hormonal Geralmente não Frequentemente indicada, se não houver contraindicação
Ondas de calor e secura vaginal Raras Frequentes e intensas

Reposição hormonal ajuda a controlar o peso?

A terapia de reposição hormonal (TRH) é frequentemente indicada para mulheres que passaram por menopausa cirúrgica, especialmente se têm menos de 50 anos. A TRH pode atenuar vários sintomas da queda estrogênica, incluindo ondas de calor, secura vaginal, alterações de sono e humor. Em relação ao peso, os dados são mais moderados: a reposição pode ajudar a manter um padrão de distribuição de gordura mais semelhante ao pré-cirúrgico e contribuir para a preservação de massa muscular, mas não elimina completamente o risco de ganho de peso [4].

É importante destacar que a TRH não é indicada para todas as mulheres — há contraindicações em casos de histórico de câncer hormônio-dependente, tromboembolismo e algumas doenças cardiovasculares. A decisão deve ser individualizada, discutida entre a paciente e seu médico ginecologista, considerando riscos e benefícios.

Estratégias práticas para prevenir o ganho de peso

É possível passar por uma histerectomia sem ganhar peso significativo, desde que se adotem medidas proativas. As estratégias mais eficazes, baseadas em evidências clínicas, incluem:

  1. Planejamento alimentar pré-operatório: Antes da cirurgia, já ajustar a alimentação para um padrão com menor densidade calórica — mais vegetais, proteínas magras e grãos integrais, menos ultraprocessados. Isso cria um hábito que será essencial no repouso.
  2. Controle de porções durante a recuperação: Como o gasto energético cai drasticamente nas semanas de repouso, reduzir as porções em 15% a 20% em relação ao habitual é uma medida razoável.
  3. Retorno progressivo à atividade física: Assim que o médico liberar, reiniciar caminhadas leves e gradualmente aumentar a intensidade. O exercício resistido (musculação) é especialmente importante para preservar massa muscular e manter o metabolismo basal elevado.
  4. Acompanhamento psicológico: Identificar sinais de depressão ou ansiedade precocemente e buscar apoio profissional pode evitar que a alimentação emocional se instale como padrão.
  5. Monitoramento regular de peso: Pesar-se semanalmente (sempre no mesmo dia e horário) permite detectar tendências de ganho precoce e corrigir a rota antes que o acúmulo se torne significativo.

Quando procurar ajuda médica

Um ganho de peso de até 2 a 3 quilos nas primeiras semanas após a cirurgia é comum e geralmente relacionado a retenção líquida e inatividade temporária. Porém, se o ganho persistir além de três meses, ultrapassar 5 quilos ou vier acompanhado de outros sintomas — inchaço abdominal persistente, fadiga extrema, alterações de humor severas ou dores articulares — é fundamental buscar avaliação médica [1][2].

Esses sinais podem indicar necessidade de ajuste na reposição hormonal, distúrbios tireoidianos (que podem ser desencadeados pelo estresse cirúrgico) ou problemas metabólicos que requerem investigação específica. O endocrinologista e o ginecologista são os especialistas mais indicados para essa avaliação.

Perguntas frequentes (FAQ)

Toda mulher que faz histerectomia engorda?

Não. Muitas mulheres mantêm o peso estável após a cirurgia. O ganho de peso não é uma consequência inevitável, mas um risco que depende de fatores como preservação ou remoção dos ovários, estilo de vida prévio, alimentação durante a recuperação e predisposição genética [4].

O ganho de peso é permanente?

Não necessariamente. A gordura acumulada após a cirurgia pode ser perdida com readequação alimentar, retorno à atividade física regular e, quando indicado, reposição hormonal adequada. Quanto mais cedo a mulher retomar hábitos saudáveis, mais fácil será reverter o quadro.

Retirar só o útero (sem os ovários) engorda menos?

Em geral, sim. Quando os ovários são preservados, a produção hormonal se mantém e o impacto metabólico é muito menor. O risco de ganho de peso nesses casos está relacionado principalmente ao período de inatividade do pós-operatório, que é transitório [4].

Quanto tempo depois da cirurgia o peso tende a estabilizar?

Para mulheres sem remoção dos ovários, o peso costuma estabilizar em dois a três meses, após o retorno às atividades normais. Para mulheres com menopausa cirúrgica, o período de adaptação metabólica pode levar de seis meses a um ano, especialmente se não houver reposição hormonal.

A histerectomia muda o metabolismo para sempre?

Se os ovários forem removidos, há uma alteração real no metabolismo devido à queda de estrogênio. Com reposição hormonal adequada e hábitos saudáveis (especialmente exercício resistido), é possível manter um metabolismo bastante próximo do pré-cirúrgico. A chave está na massa muscular: quanto mais músculo a mulher mantiver, mais estável será seu gasto calórico.

Fontes

[1] Associação Paulista de Medicina — Histerectomia: quando a remoção do útero é necessária e quais problemas ela pode trazer para a saúde física e mental. Disponível em: apm.org.br

[2] Vencer o Câncer — Histerectomia: tudo sobre a cirurgia de retirada do útero. Disponível em: vencerocancer.org.br

[4] Cirurgia Robótica Paraná — O que muda após a retirada do útero? Disponível em: cirurgiaroboticaparana.com.br