O Cheiro Que Atrai os Mosquitos

Os mosquitos não escolhem suas vítimas ao acaso. Eles são guiados por sinais químicos invisíveis que nosso corpo emite o tempo todo. O principal fator que determina se você será ou não o alvo favorito desses insetos é a composição do seu microbioma cutâneo — o conjunto de bactérias que vivem na superfície da pele. Cada pessoa abriga uma comunidade bacteriana única, e essa assinatura microbiana produz substâncias voláteis que os mosquitos conseguem detectar a metros de distância.

Um estudo publicado na revista Cell em 2022 por pesquisadores da Universidade Rockefeller, em Nova York, demonstrou que ácidos graxos específicos presentes na pele — particularmente o ácido carboxílico — são os principais responsáveis por atrair mosquitos do gênero Aedes aegypti. As pessoas com concentrações mais altas desses compostos eram sistematicamente as mais visadas nos testes de laboratório, mesmo quando cercadas por outros voluntários.

É por isso que duas pessoas sentadas lado a lado no mesmo quintal podem ter experiências tão diferentes: uma termina a noite cheia de picadas, a outra quase intacta. A diferença não está no sangue — está na química da pele.

O Papel do Dióxido de Carbono

Antes mesmo de detectar os odores da pele, os mosquitos localizam humanos pela emissão de dióxido de carbono (CO₂) na respiração. Fêmeas de mosquito possuem receptores especializados chamados cpA, localizados nas antenas, extremamente sensíveis ao CO₂. Consegem detectar aumentos na concentração desse gás a até 50 metros de distância.

Pessoas que respiram mais rápido, têm maior capacidade pulmonar ou estão praticando atividade física exalam mais CO₂ e, por isso, se tornam faróis vivos para os mosquitos. Gestantes também produzem cerca de 21% mais CO₂ que mulheres não gestantes de mesma idade, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o que explica por que grávidas frequentemente relatam ser mais picadas.

Além do CO₂, o calor corporal também orienta os mosquitos na fase final da aproximação. Com receptores infravermelhos nas antenas, eles percebem a radiação térmica do corpo humano. Pessoas com temperatura corporal ligeiramente mais alta — como crianças, pessoas febris ou quem acabou de se exercitar — emitem um sinal térmico mais forte.

Genética e Tipo Sanguíneo

A ciência confirmou que a atratividade para mosquitos tem forte componente genético. Um estudo conduzido pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres com gêmeos idênticos e fraternos revelou que a predisposição a atrair mosquitos é herdável em até 67%. Ou seja, se seus pais são ímãs de mosquitos, há uma boa chance de você também ser.

O tipo sanguíneo também influencia. Pesquisas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e de instituições internacionais mostraram que pessoas do tipo O são picadas com mais frequência do que as dos tipos A, B e AB. Um experimento publicado no Journal of Medical Entomology constatou que mosquitos Aedes albopictus pousaram em pessoas do tipo O 83% mais vezes do que em pessoas do tipo A. A hipótese é que o tipo O secreta mais substâncias químicas atrativas pela pele.

O suor entra nessa equação porque carrega ácido láctico, ácido úrico e amônia — compostos que funcionam como verdadeiros convites olfativos. Quem transpira mais, seja pelo calor, exercício ou genética, libera maiores quantidades dessas moléculas na superfície da pele.

Por Que Só as Fêmeas Picam

Um detalhe que muita gente desconhece: apenas as fêmeas de mosquito picam. Os machos se alimentam exclusivamente de néctar de flores e água. A razão é puramente reprodutiva — as fêmeas precisam de proteínas e ferro presentes no sangue para produzir e amadurecer seus ovos. Uma única fêmea pode colocar entre 100 e 300 ovos por ciclo reprodutivo.

Quando a fêmea pica, ela injeta saliva na pele. Essa saliva contém anticoagulantes que impedem o sangue de coagular, facilitando a sucção, além de substâncias anestésicas que bloqueiam a dor momentaneamente. É a reação do sistema imunológico a esses componentes da saliva — e não a picada em si — que causa a coceira, o vermelhidão e o inchaço, da mesma forma que outras substâncias externas provocam reações automáticas no corpo. Cada pessoa reage de forma diferente a esses alérgenos salivares, o que explica por que algumas desenvolvem marcas grandes e outras mal percebem a picada.

O ciclo é implacável: após se alimentar de sangue, a fêmea descansa por dois a três dias, digere a refeição e procura um recipiente com água parada para depositar seus ovos — água que, aliás, interage com nosso corpo de formas surpreendentes, assim como outras respostas físicas do organismo. Em regiões tropicais como o Brasil, uma única fêmea pode completar esse ciclo várias vezes ao longo de sua vida, que dura de duas a quatro semanas.

Como Reduzir a Atratividade

Se você não pode mudar sua genética, pode ao menos adotar estratégias comprovadas para se tornar menos atraente aos mosquitos. O passo mais eficaz é o uso de repelentes com ingredientes ativos registrados pela ANVISA e recomendados pela OMS:

  1. DEET (N,N-dietil-meta-toluamida): o padrão-ouro desde a década de 1950. Concentrações entre 20% e 50% oferecem proteção de 4 a 8 horas.
  2. Icaridina: considerada tão eficaz quanto o DEET, com a vantagem de não danificar plásticos e tecidos sintéticos. Protege por até 10 horas na concentração de 20%.
  3. IR3535: composto sintético com perfil de segurança elevado, bastante utilizado em repelentes infantis.
  4. Óleo de eucalipto-limão (OLE): único repelente natural com eficácia comprovada pelo CDC americano, protegendo por até 6 horas.

Vestuário também importa. Roupas de cores claras atraem menos mosquitos, pois esses insetos usam a visão para complementar a localização por cheiro. Tecidos soltos e de trama mais fechada dificultam a penetração do aparelho bucal da fêmea. Meias e calças compridas reduzem a área de pele exposta.

Eliminar água parada continua sendo a medida de controle mais eficiente a longo prazo. Pratos de vasos de planta, calhas entupidas, garrafas vazias, pneus velhos e até tampas de garrafa com água podem servir de criadouro. A fêmea precisa de menos de um centímetro de água para depositar seus ovos.

O Que a Ciência Ainda Investiga

Pesquisadores ainda buscam entender por que algumas pessoas são verdadeiros “ímãs de mosquito” enquanto outras quase não são percebidas. Em 2024, cientistas da Universidade de Washington identificaram um receptor específico no mosquito Aedes aegypti chamado OR39, que responde fortemente a um composto chamado sulcatone — presente em níveis mais altos na pele de pessoas que atraem mais mosquitos. Essa descoberta abre caminho para o desenvolvimento de inibidores químicos que bloqueiam esse receptor, podendo neutralizar a capacidade do mosquito de localizar suas vítimas preferidas.

Perguntas Frequentes

Mosquitos preferem sangue doce?

Não. O que atrai mosquitos não é o nível de açúcar no sangue, mas sim substâncias presentes na pele, como ácidos carboxílicos e ácido láctico. Esses compostos variam de pessoa para pessoa conforme o microbioma cutâneo e a genética.

Beber cerveja atrai mais mosquitos?

Sim. Um estudo publicado na revista PLoS ONE mostrou que o consumo de cerveja aumentou a atratividade para mosquitos em cerca de 18%. O álcool altera a temperatura corporal e a composição do suor, liberando mais compostos detectáveis pelos insetos.

Comer alho espanta mosquito?

Não existem evidências científicas sólidas de que consumir alho ou vitamina B reduza picadas de mosquito. Estudos controlados não mostraram diferença significativa entre pessoas que ingeriram esses alimentos e as que não ingeriram. Repelentes tópicos registrados continuam sendo a estratégia mais eficaz.

Fontes e Referências

  • De Obaldia et al. “Differential mosquito attraction to humans is associated with skin-derived carboxylic acid levels.” Cell, 2022 — DOI: 10.1016/j.cell.2022.09.034
  • Fernandes et al. “Attraction of Aedes albopictus to human blood types.” Journal of Medical Entomology, 2019 — Oxford Academic
  • Zhao et al. “Mosquito odorant receptor for human sweat sulcatone.” Current Biology, 2024 — Science Advances
  • OMS — Vector-borne diseases: key facts, 2024 — WHO Fact Sheet
  • WebMD — “How to Treat Mosquito Bites”, 2023 — WebMD