Os rastros brancos que os aviões deixam no céu não são fumaça, muito menos produtos químicos deliberados: são nuvens feitas de cristais de gelo que se formam quando o vapor de água do escape quente dos motores encontra ar frio e úmido em altitude de cruzeiro. O princípio é o mesmo que transforma sua respiração em névoa num dia frio de inverno — só que, a mais de 8 mil metros de altura, o resultado é uma trilha de gelo que pode sumir em segundos ou durar horas, dependendo da umidade do ar por onde o avião passa. É por isso que, num mesmo dia, alguns voos desenham linhas longas no céu e outros não deixam marca alguma.

Nuvens de gelo criadas por motores

Um motor a jato queima querosene e libera, junto com os gases da combustão, bastante vapor de água e partículas minúsculas, como fuligem. Quando esse jato quente e úmido sai do motor e se mistura com o ar gelado da alta atmosfera, esfria muito rápido. O vapor então condensa sobre essas partículas e congela quase de imediato, criando milhares de cristais microscópicos de gelo — a linha branca que enxergamos do chão. A FAA, a autoridade de aviação civil dos Estados Unidos, explica exatamente assim em sua página oficial sobre rastros de condensação.

A diferença para uma nuvem comum está só na origem da umidade e das partículas: no cirro natural, ambos vêm da própria atmosfera; no rastro, é o avião que injeta os dois. Em altitude de cruzeiro, a temperatura é tão baixa que qualquer gotícula formada vira gelo antes de evaporar. Por isso o rastro é sempre branco: cristais de gelo espalham a luz do sol em todas as cores, como qualquer nuvem alta.

Altitude e frio extremo

Nem todo voo deixa rastro, e o motivo é físico. Segundo o material do programa GLOBE, mantido pela NASA, os rastros só aparecem em altitudes muito altas, geralmente acima de 8 km, onde o ar é extremamente frio, abaixo de -40 °C. Abaixo dessa faixa, a atmosfera é quente ou seca demais: o vapor do escape se dispersa antes de virar cristal visível, e não há trilha nenhuma. O mesmo guia lembra que a umidade que sentimos no solo pode ser completamente diferente da umidade lá em cima, então um dia abafado na terra não significa céu propenso a rastros.

A tabela abaixo resume o que decide o destino de cada trilha:

Condição do ar na altitude O que acontece com o rastro
Frio, mas seco Gelo sublima e a linha desaparece em segundos
Frio e úmido Cristais sobrevivem; o rastro dura minutos e mantém a forma de linha
Frio e supersaturado de gelo Rastro persiste, se alarga com o vento e vira uma nuvem cirro artificial

Por que uns somem

O fator decisivo é a umidade relativa ao gelo. Quando o ar está seco, a maioria dos rastros desaparece em questão de segundos a minutos, mas alguns persistem por horas quando o ar está supersaturado de gelo — uma condição em que a atmosfera tem mais vapor do que conseguiria manter sem congelar. O guia The Science of Contrails, do GLOBE, divide as trilhas em três grupos: as de vida curta, as persistentes que não se espalham e as persistentes que se espalham até perder a forma original.

Isso também explica por que um rastro às vezes começa e para de repente, como se tivesse sido desenhado com traços interrompidos. Não é o motor ligando e desligando: o avião atravessou um bolsão de ar úmido e entrou numa região seca, ou vice-versa. A FAA chama essas zonas de regiões de supersaturação de gelo, e elas se movem com os sistemas meteorológicos, como qualquer massa de ar.

O efeito no clima

Rastros persistentes não são apenas um fenômeno bonito: eles mudam o balanço de energia da atmosfera. De dia, refletem parte da luz do sol de volta para o espaço; à noite e sobre superfícies escuras, prendem o calor que a Terra irradia. A conta média sai negativa para o clima, ou seja, esquenta. Segundo uma análise da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine dos Estados Unidos, o aquecimento causado por esses rastros persistentes é estimado como tão grande quanto — ou maior do que — o aquecimento provocado pelos gases emitidos pela queima de combustível de aviação.

Uma revisão científica publicada na Nature Communications detalha o mecanismo: os rastros se formam entre 8 e 13 km de altura e, em ar supersaturado, crescem capturando vapor do ambiente até virar cirros induzidos por aeronaves. O ponto curioso é que só uma pequena fração dos voos é responsável por quase todo o efeito climático — os que cruzam justamente as regiões frias e carregadas de umidade. Por isso, pesquisadores estudam rotas alternativas e combustíveis mais limpos para reduzir a formação dessas nuvens artificiais.

Como ler o céu

Com esses quatro critérios, dá para interpretar as linhas no céu em qualquer dia claro:

  • Rastro que some em segundos: ar seco na altitude; a trilha foi apenas vapor que evaporou.
  • Rastro que dura e se alarga: ar úmido e supersaturado de gelo; provavelmente virá um cirro artificial.
  • Traços interrompidos: o avião atravessou bolsões de umidade desiguais.
  • Linhas paralelas ou cruzadas: corredores de rota movimentados, onde vários voos cruzam a mesma faixa úmida.

E a ideia de que seriam químicas borrifadas de propósito não se sustenta: a composição do rastro é conhecida e medida — gelo formado a partir do vapor de água do próprio combustível queimado, o mesmo que sai do escapamento de um carro num dia frio. Dúvidas cotidianas desse tipo rendem boas explicações científicas, como já fizemos com o reflexo que causa o soluço e com a fermentação que faz o pão crescer.

Fontes