Quem já tomou um gole involuntário de água do mar na praia conhece o gosto forte e persistente do sal — mas por que o mar é salgado? A resposta começa longe da costa: nas rochas do continente. Ao longo de bilhões de anos, a chuva levemente ácida desgasta as rochas, dissolve seus minerais e os rios transportam esses íons dissolvidos até o oceano. A água do mar evapora e volta ao céu como chuva, mas o sal não evapora: fica acumulado. Como o oceano é o ponto final dessa longa jornada, a concentração cresceu até chegar aos níveis que sentimos em qualquer praia do mundo.

Da rocha ao oceano

O processo que arranca o sal das rochas tem nome: intemperismo químico. Ao cair, a chuva absorve um pouco de dióxido de carbono presente no ar. A mistura forma o ácido carbônico, que torna a água da chuva levemente ácida. Essa água corrói fisicamente a superfície das rochas e, ao mesmo tempo, reage quimicamente com os minerais, liberando íons dissolvidos — entre eles sódio, cloreto, cálcio, magnésio e potássio. Esses íons seguem junto com a água pelos caminhos naturais do relevo até chegar ao mar.

O trajeto completo do sal pode ser resumido em quatro etapas simples:

  1. A chuva absorve dióxido de carbono do ar e se torna levemente ácida.
  2. A água ácida desgasta as rochas e dissolve parte dos seus minerais.
  3. Os íons dissolvidos escoam para riachos, córregos e rios.
  4. Os rios deságuam no oceano e entregam a carga de sais.

Sem esse ciclo constante, que funciona desde que existe chuva sobre os continentes, o mar seria muito menos salgado do que é. Cada grama de sal que chega ao litoral já passou, antes, por dentro de uma rocha desgastada pela água.

Rios doces, mar salgado

Se os rios carregam sais dissolvidos o tempo todo, por que a água deles não tem gosto de sal? A explicação está na diluição e na reposição. A chuva repõe continuamente água doce nos rios, mantendo a concentração de sais em níveis baixos demais para serem percebidos pelo paladar. O oceano, em contrapartida, recebe sais de todos os rios do planeta e devolve à atmosfera apenas água pura, por meio da evaporação — o sal fica para trás, concentrado. É uma conta que só acumula: os rios do mundo despejam, por ano, algo em torno de quatro bilhões de toneladas de sais dissolvidos no oceano. Para entender as propriedades físicas da água que tornam esse ciclo possível, vale a leitura sobre por que o gelo flutua na água, outro comportamento curioso da mesma molécula.

A química da salinidade

Nem tudo o que está dissolvido no mar é o sal de cozinha de verdade, mas a maior parte é mesmo cloreto de sódio — a mesma substância do saleiro. Em termos químicos, cloreto e sódio respondem por mais de 90% de todos os íons dissolvidos na água do mar. O restante se divide entre sulfato, magnésio, cálcio, potássio e outros elementos em concentrações menores. Essa proporção é praticamente a mesma em qualquer oceano do planeta, o que permite aos cientistas usar a salinidade como uma espécie de assinatura química da água do mar. Quem quiser se aprofundar na composição pode conferir também a análise sobre a química que explica o oceano.

Quanto sal existe no mar

A concentração de sais dissolvidos é medida pela salinidade. Em números, a salinidade média da água do mar fica em torno de 35 partes por mil — ou seja, em cada quilograma de água do mar existem aproximadamente 35 gramas de sais dissolvidos. A comparação entre diferentes ambientes ajuda a dimensionar o que isso significa:

Ambiente Salinidade aproximada
Mar Báltico 7 a 8 partes por mil
Oceano aberto (média global) 35 partes por mil
Mar Mediterrâneo 38 a 39 partes por mil
Mar Morto cerca de 340 partes por mil

As diferenças têm explicação: o mar Morto recebe pouca água doce e evapora muito, concentrando sais em níveis quase dez vezes maiores que os oceanos; o Báltico, ao contrário, é alimentado por vários rios grandes, que diluem a água. A salinidade também varia com a temperatura e com a formação e o degelo do gelo marinho, que retira e devolve água doce ao sistema.

O saldo de sal do oceano

Se o sal chega ao mar continuamente, a salinidade deveria subir sem parar — e por muito tempo foi assim. Hoje, porém, a conta praticamente fecha: a entrada e a saída de sal no oceano estão hoje aproximadamente equilibradas, e por isso o oceano não está ficando mais salgado. Isso acontece porque parte do sal se deposita como sedimento no fundo do mar, ao mesmo tempo que reações com rochas submarinas e a atividade vulcânica nas dorsais oceânicas tanto retiram quanto devolvem sais à água. O resultado é um equilíbrio dinâmico, mantido há milhões de anos, em que a salinidade média se mantém estável apesar do fluxo constante de novos sais vindos dos continentes.

Resumindo: o mar é salgado porque é o destino final de todos os minerais que a água dissolve pelo caminho — e porque, diferente dos rios, ele não tem para onde enviar o sal que acumulou.

Fontes