Por que as estrelas cintilam? O motivo está muito mais perto de você do que parece: está no ar. Entre a estrela e o seu olho existe toda a espessura da atmosfera em agitação constante, e é essa agitação, e não a estrela, que produz o brilho tremido. Camadas de ar a temperaturas diferentes estão em movimento e desviam a luz que vem do espaço antes de ela chegar ao seu olho. Cada desvio muda um pouco a direção e a intensidade do feixe de luz, e o seu olho registra essas variações rápidas como um ponto que pulsa no céu.

A física da cintilação

No vácuo do espaço, a luz viaja em linha reta. Ao entrar na atmosfera, ela encontra ar de densidades e temperaturas diferentes, e cada mudança de meio altera levemente sua velocidade e sua trajetória: é o fenômeno da refração, o mesmo que faz uma colher parecer quebrada dentro de um copo de água. O problema é que o ar não fica parado. Massas de ar quente sobem, ar mais frio desce, e o movimento constante cria um emaranhado de correntes sobrepostas.

Cada fronteira entre parcelas de ar com densidades diferentes funciona como uma lente minúscula que desvia o feixe. Para a maioria dos objetos isso passa despercebido, mas as estrelas são fontes de luz extremamente distantes: todo o brilho que você vê chega de um único ponto no céu. Quando todo o feixe atravessa as mesmas correntes ao mesmo tempo, o desvio afeta o brilho inteiro de uma vez, e a estrela parece piscar. A interação da luz com a matéria explica muitos efeitos do cotidiano — um exemplo é o artigo sobre por que o micro-ondas aquece a comida, em que outro comportamento das ondas produz um resultado bem diferente.

Por que o horizonte piora

A quantidade de ar entre você e a estrela depende da direção em que você olha. Quando a estrela está perto do horizonte você olha através do caminho com a maior quantidade possível de atmosfera entre você e a estrela, e ela aparece como um borrão maior que 1 segundo de arco, com cintilação bem mais intensa. Na direção do zênite, o ponto mais alto do céu, o caminho pela atmosfera é o mais curto possível, e as estrelas ficam mais firmes e nítidas. Os astrônomos chamam a qualidade das imagens do céu em uma dada noite de visão (seeing), e ela varia com o lugar, a direção do olhar e a própria hora da observação.

Onde você observa Quanto ar a luz atravessa Como a estrela aparece
Perto do horizonte Caminho máximo pela atmosfera Borrão maior, cintilação forte
Alto no céu, perto do zênite Caminho mínimo Ponto mais firme e definido
Topo de montanha alta Menos ar do que ao nível do mar Imagem mais estável
Órbita, fora da atmosfera Praticamente nenhum Sem cintilação atmosférica

Como os observatórios escapam

Profissionais convivem com esse problema há séculos e desenvolveram três estratégias. A primeira é escolher bem o lugar: observatórios profissionais são construídos no alto de montanhas, como o Mauna Kea, no Havaí, justamente para ficar acima de uma boa parte da atmosfera turbulenta. A segunda é corrigir a distorção em tempo real: sistemas de óptica adaptativa medem a deformação causada pelo ar e ajustam espelhos deformáveis centenas de vezes por segundo, devolvendo ao telescópio no chão um desempenho comparável ao de um instrumento no espaço.

A terceira estratégia é sair da atmosfera. O Telescópio Espacial Hubble orbita a cerca de 350 milhas de altitude, acima das camadas de ar que perturbam as imagens dos telescópios no solo, e por isso entrega imagens mais nítidas do que a maioria dos instrumentos terrestres consegue alcançar. Para o observador de quintal, a lição dos profissionais serve de guia: quanto menos ar turbulento entre o seu olho e a estrela, melhor.

A estrela não pisca

Vale repetir o ponto central: a estrela em si não pisca. As estrelas são gigantescas bolas de gás quente, formadas sobretudo por hidrogênio, com hélio e pequenas quantidades de outros elementos, segundo a NASA. A energia que elas emitem vem de processos físicos profundos e estáveis em escalas de tempo humanas, e nada nesse processo produz um liga e desliga de brilho perceptível a olho nu a quilômetros por segundo. O tremor que você vê é criado no último trecho da jornada da luz, dentro da atmosfera que envolve a Terra. A página sobre estrelas da NASA Science detalha como esses corpos se formam, evoluem e morrem.

Dicas para observar melhor

Com a causa explicada, dá para transformar o fenômeno em vantagem prática na hora de olhar o céu:

  1. Prefira estrelas altas no céu: perto do zênite a luz atravessa menos ar e cintila menos.
  2. Desconfie de brilhos muito trementes perto do horizonte: ali o efeito é dominado pela atmosfera, não pelo objeto.
  3. Compare noites diferentes: a turbulência muda de uma noite para outra, e a mesma estrela pode parecer firme hoje e agitada amanhã.
  4. Lembre do plano dos profissionais: lugares altos e ar estável sempre ajudam.

Curiosidades do dia a dia também escondem física interessante: depois do céu, vale entender por que a banana escurece depois de descascada.

Fontes